Friday, July 08, 2005

O ofício de Pavese

É o que tenho mais próximo de uma leitura de cabeceira mesmo se à cautela o deixo a repousar na estante. Costumo folheá-lo a horas certas e incertas, ao sabor das vicissitudes dum espírito acossado ou dos caprichos duma insónia recalcitrante. Inexoravelmente, descubro sempre por ali um post arguto e certeiro em que me revejo com uma clarividência assustadora qualquer que seja a conjuntura endógena que me atrapalhe a puta da vida (a parte do génio não se aplica por manifesta falta de comparência, claro).

Quando um homem está no estado em que me encontro, só lhe resta fazer o exame de consciência.
Não tenho motivo para repudiar a minha ideia fixa de que tudo o que acontece a um homem é condicionado pelo seu passado; em suma, é merecido. Evidentemente que devo ter feito das boas para ter chegado a este ponto.
(...) Nunca trabalhei verdadeiramente e, de facto, não sei qualquer ofício. E há outro defeito que se vê também claramente. Nunca fui o simples inconsciente que goza as suas satisfações e se está nas tintas. Sou demasiado cobarde para isso. Acariciei-me sempre com a ilusão de que possuía o sentido da vida moral, passando instantes deliciosos - é a palavra justa - a inventar casos de consciência, sem me decidir a resolvê-los pela acção. Depois, não desejo exumar a complacência com que outrora me entregava ao aviltamento moral com fins estéticos, e do qual esperava uma carreira de génio. E este período ainda não o superei.


Cesare Pavese (1908-1950) in O Ofício de Viver | Relógio D'Água
(trad. Alfredo Amorim / Margarida Periquito)