Saturday, August 20, 2005

Inventário

fim de tarde à beira-mar
entre duas praias já semi-desertas
arrefece, o vento sopra q.b.
mas o sol ainda vence as nuvens
sigo o apelo do sul
caminho sem ritmo certo
a espuma das ondas banha-me os pés
dois surfistas dão à costa com as respectivas pranchas
um terceiro demora-se lá dentro mais um pouco
mais à frente
um par de namorados regressa enlaçado, envolto numa toalha
(ele mordisca-lhe a orelha, ela solta risinhos)
um homem corre na areia rente ao mar, ida e volta
(há gente mesmo doida)
um voyeur de boné espreita do cimo da falésia para as dunas
(não é o seu dia de sorte)
avisto um bando de gaivotas
dez, quinze, talvez mais, paradas na areia molhada
deixam-me aproximar até meia-dúzia de metros
(caramba, nunca estive tão perto delas)
saco do telemóvel e tiro duas fotos
ficam uma merda, claro
(siemens c65)
as patitas delas num frenesim a dar a dar
umas atrás das outras começam a bater as asas
lançam-se em círculos esvoaçantes que me cercam lá de cima
mais à frente
olho para trás, já poisaram de novo
continuo a andar
não consigo perceber se a maré está a subir ou a descer
vou distraído já não sei com quê
uma onda mais forte molha-me os calções
e metade da t-shirt por cima deles
foda-se,
agora vão demorar a secar
(paciência)
observo a água limpando pegadas areia acima
e logo deslizando obediente de regresso ao dono
vem-me à cabeça o Burt Lancaster e a Deborah Kerr
vá-se lá saber porquê
que nunca me vi por ali nesses preparos
(infelizmente)
paro uns instantes, mãos na ilharga
inspiro e respiro o cheiro da maresia
escurece, vejo as horas
(7.35 pm)
porra,
é tarde
dou meia volta e empreendo o percurso inverso
espero que o carro ainda lá esteja
depois um duche, jantar e o futebol que começa hoje
acelero o passo
a areia fina e seca liberta-me os pés da húmida irmã
já falta pouco
aguenta-te
é só mais um bocadito de consciência
a pensar na porcaria da tua vida
ou na falta dela.