Thursday, August 18, 2005

Simplesmente maria

Tinha uma filha maria-rapaz e um filho a modos que rapaz-maria.
Tinha neles um orgulho desmesurado como só os pais podem ter ainda que não achasse justo tantas marias na terra.
Tinha até um tremendo mau génio quando lhe chegava ao ouvidos alguma boca da vizinhança maldizendo as meninas dos seus olhos. "Mau maria ..." começava ele num tom ameaçador que logo impunha respeito na plateia beata e calava a má-língua circundante.
Mas à noite, deitado na cama com a mulher a seu lado, também tinha sempre o mesmo lamento acusador de quem há muito deixara de ser rapaz.
— Maria, a culpa é toda tua!
Ela nunca se defendia. Sabia que faltava menos um dia até chegar a noite em que ele adormeceria sem o desabafo da virilidade sofrida. Simplesmente.