Monday, September 26, 2005

Quotidiano

Levanto os olhos do jornal e reparo neles assim que entram na pastelaria. Sentam-se em frente um do outro, a mesinha com um cinzeiro de permeio, logo a primeira junto à porta. Se não têm idade para votar, falta pouco. Ele faz sinal e pede dois cafés à empregada. Enquanto esperam, a timidez assoma e baixam a guarda no confronto dos olhares. Primeiro ela, os dedos rondando o decote. Depois ele, seguindo-lhe o rumo até às eternas coordenadas do seu corpo. Ela é a primeira a vencer o doce embaraço. Levanta a cabeça e pergunta-lhe qualquer coisa para fazer conversa, presumo. Ele demora dois ou três segundos a responder, daqueles que parecem dois ou três minutos ao interpelado. Sorrio. Sinto-me um invasor da privacidade alheia e bato em discreta retirada retomando a leitura suspensa. Volto a observá-los com mais atenção daí a pouco quando o arrastar das cadeiras me avisa que vão embora. Através da vidraça, vejo-os já na rua dar dois, três passos, lado a lado. Ao quarto, dão instintivamente as mãos e saem do enquadramento. Ainda fico ali um bocado, sem pestanejar, fixando o ponto da calçada que os dedos enamorados escondiam. Depois dobro o jornal debaixo do braço, pago a bica, e saio de volta para a porcaria do escritório, no sentido oposto.