Thursday, September 29, 2005

Same old thoughts

Quem me vê no café, sózinho ao balcão ou numa mesa, esboçando um leve sorriso enquanto faço tilintar a colherzita contra a chávena sempre que dissolvo o pacotinho de açúcar em mais uma bica, não imagina o que me vai na cabeça. Não raras vezes, lembro-me de uma qualquer leitura refugiada no recôndito da memória. Como esta, por exemplo:

"Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio era ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. Tim, tim, tim, tim. E o café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um 'maelstrom'. E eu encontrava-me sentado mesmo à frente. O café estava à pinha. O homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima. Fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:
— O açúcar ainda não está derretido.

Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E continuava a olhar para mim, sorrindo. Então puxei da pistola e disparei."




Max Aub in Crimes Exemplares | Antígona
(trad. Jorge Lima Alves)

(reposição)