Saturday, January 21, 2006

6.11 AM (lendo o Bergman)

Há mais de vinte anos que tenho insónias crónicas, coisa que, em si, não é perigosa, pois é possível vivermos dormindo muito menos do que se dorme. Cinco horas, para mim, são perfeitamente suficientes. Mas o que desgasta é a vulnerabilidade da noite, o que nela se dá enquanto dura: as proporções alteradas de tudo, o repisar de situações vividas, sejam elas estúpidas ou humilhantes, o arrependimento por maldades impensadas ou intencionadas. Amiúde, durante a noite, vêm-me fazer companhia bandos de aves negras: a angústia, a fúria, a vergonha, o arrependimento, a neura. E até para as insónias há rituais: mudar de cama, acender a luz, ler um livro, ouvir música, comer bolachas, beber chocolate ou água mineral.



Ingmar Bergman in Lanterna Mágica | 1987 | Editora Caravela
(trad. Alexandre Pastor)