Monday, June 12, 2006

História mínima

CAMPONÊS plantando árvores e HOMEM solitário. Aproxima-se a hora solene do ocaso. O HOMEM, que percorrera todos os caminhos do mundo, suspira profundamente.

HOMEM — (Depois de um longo silêncio) Ouça.

CAMPONÊS — O quê?

HOMEM — (Com voz cansada) Plante-me também a mim.

CAMPONÊS — (Surpreendido) Como?

HOMEM — Plante-me a mim.

CAMPONÊS — (Sem demonstrar a surpresa) Porquê?

HOMEM — Estou cansado.

CAMPONÊS — E como quer que o plante?

HOMEM — Como se fosse uma macieira.

CAMPONÊS — Está a falar a sério?

HOMEM — Não sei falar de outra forma.


Pausa. O CAMPONÊS encolhe os ombros, põe o homem às costas, mete-o no buraco pequeno e enterra-o até aos tornozelos. O HOMEM, que abrira os braços em cruz, levanta os braços para o céu e fica muito quieto, quase sem respirar, à espera do milagre de uma nova primavera que o faça, por fim, frutificar.




Javier Tomeo in Histórias Mínimas | Livros Horizonte
(trad. Maria Dulce Teles de Menezes / Salvato Teles de Menezes)